quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Cartas - Adoro

Uma amiga me emprestou um livro Tudo o que eu queria te Dizer - Martha Medeiros.
É recheado de cartas. É como se o carteiro tivesse deixado sua sacola com todas as cartas dentro e a gente fosse abrindo uma a uma e lendo. Participando das histórias trágicas e cômicas. Cheias de sentimentos, desesperos, angústias, amor, paixão, enfim. Tudo está escrito. Bem, eu sou assim, eu escrevo tudo o que não tenho coragem de falar cara-a-cara. Sim, sou velha. Adoro romance à moda antiga. Onde cartas, flores, jantar e chocolates sempre foram bem vindos. Pena que a realidade não é essa. Não existem cartas, flores, chocolates. Nem jantar. Nem romance. Mas, querendo ou não, como uma romântica incorrigível que sou, não pude deixar de gostar do livro emprestado por uma estimada amiga. Vê só como são as mulheres. Ela leu, sabia que eu iria gostar e me emprestou. Simplesmente adorei. Adorei tanto que na minha próxima visita à feira do livro, procurarei esse livro para minha coleção pessoal. Sim. Coleciono livros. Mesmo que não os leio. Estão lá. Na minha estante. Cheirando à sentimento, imaginação, fantasia. Para deixá-los com vontade de ler, vou reproduzir uma das várias cartas, mas foi a que mais me chamou atenção.

"Denise, ma belle, em que mundo te perdeste que não e reconheço mais? Perto sei que estás, mas tua sintonia não é mais a minha e a de ninguém que eu conheço, pulaste para o lado mesquinho da vida, que fica do outro lado da rua, mas alguém te alertou? Intuindo que não, adotei pra mim esta incumbência. Quero te trazer de volta para alguma sanidade possível, ou para um insanidade menos vulgar. Fazer julgamento é algo que não me atrai, de amiga como tu muito menos, mas alguém tem que te dizer.

Viveste o que ainda não vivi, perda da mãe, uma dor que cada um é que sabe. Em qualquer idade, é um baque. Mesmo entre nés, adultas. Depois da morte, vem o luto, o pranto, a saudade e a herança, o momento de repartir não só lembranças, mas objetos, retratos, roupas e artigos luxuosos, se houver. Denise, teu tesouro pessoal é o que conquistaste antes de ela partir, é o que ela te deixou em vida: caráter, alegria, tua beleza, vocês eram idênticas. Disposição pro trabalho, que nunca te faltou. Tuas gavetas repletas de discos, blusões de lã, biquínis coloridos, livros de poemas que me obrigaste a ler e que eu nunca entendi, porque confusos, mas tu diz que são bons, então são. Tua sala cheia de flores, velas, panos por todo lado, atirados no chão, por cima dos móveis e pelas paredes, tenda indiana em pleno centro urbano, incenso, jarros com água, lápis de cor, janelas abertas, e tu linda, já disse isso. Se eu tivesse que fugir da minha vida seria pra tua casa.

Ela morreu. Mães morrem, Os pais, Os irmãos. Os cachorros da nossa infância. Aqueles tios das fotografias antigas. O ciclo não se interrompe. Vivemos e iremos, e enquanto isso vamos escutando música e conversando um pouco, para nos distrair. Mães morrem. E deixam seus rastros para os filhos, sua história, seu encanto. E jóias. las semre ganham algumas em vida, e as deixam para nossa vaidade e cobiça.

A sua deixou mais que jóias, e isso interessa apenas a você e a seu irmão, os que herdaram a criação, mas soube por terceiros que a criação não está lhes bastando e que vocês romperam. Você e seu único irmão romperam por causa de escrituras, romperam pelos brilhantes que ficaram, pelos anéis que as poucos estão se transformando em alianças de rancor, decepção e solidão. Como se disputassem um amor: mamãe, de quem você gosta mais? u também perguntava isso para a minha, crianças gostam de torturar. A resposta sempre igual - "de ambos da mesma forma -, e quem é que acredita? Denise, você também não vai escolher quando seus dois meninos começarem a disputá-la.

Soube ainda por outros - por que você não me telefona mais? - que o que te move é o ódio. Eu tapo meus ouvidos com as mãos porque, verdade ou mentira, não posso aceitar. Denise, ma belle, a menina mais encantadora do colégio, agora é esta que se afasta da luz do dia, tanca por dentro as portas do seu castelo e cai na cilada mais manjada da vida: trocar paz por dinheiro. Sei que deve lutar pelo que é seu, mas o que é nosso ninguém tira. O que é seu ja á lhe pertence. Que diferença faz guardar no cofre?

Denise, rogo pela sua sabedoria, que sempre foi maior que sua ambição. Você sabe que a pior briga é essa, a que visa uma riqueza imediata. Será eterna esta discórdia. A razão está dos dois lados, cada um de vocês está acertando as contas com o seu passado, com a sua infância e com suas próprias carências. Todos nós chegamos até aqui abrind mão de muita coisa lá atrás. Mãe é uma espécie de Nossa Senhora que nos impede a selvageria e o urro, concentrarmo-nos no esforço de seguir fazendo de conta que somos maduros. Ninguém é, e a orfanidade é um álibi tentador, ela justifica que nunca mais pararemos de chorar. Mas pare. Pare agora de chorar.

Estamos envelhecendo, Denise. E morreremos. Se for concedido a nós, antes da morte, um tempo para avaliar o que fizemos de nossas vidas, acredite, você não irá contabilizar o que está dentro do cofre, pois isso de nada mais adiantará. Pelo bem dos que ficam, o melhor é distribuir em vida tudo o que conquistamos de material, para que ninguém brigue pelo que não importa. Sua mãe não teve esse tempo, morreu rápido, mas sei que ela mesma tomaria para si este compromisso, sem permitir que vocês brigassem desse jeito. Ali adiante, Denise, na hora de fazer um balanço, o valor não estará nos cifrões, a contabilidade será outra: quantos amigos? quantos sorrisos? quanta felicidade? quanto amor? E seu irmão tem que pesar nesta conta. Porque são raros e eternos aqueles que nos viram crescer. São eles que merecem testemunhar tanto nossa chegada quanto nossa partida. A partida é sempre muito solitária.

Ma belle, viver bem não é para amadores. Puxe para si a responsabilidade de encerrar de vez essa inimizade estéril, esse desgaste emocional tão nocivo à pele e ao humor. Você não é uma menina, é uma mulher. E uma mulher deve saber discernir o que é, de fato, uma derrota e uma vitória. Derrota é quando a gente ganha dos outros, mas desiste de si mesma.

Ao seu lado, mesmo que você não me veja,

Cris.

Carta retirada do livro "Tudo o que eu queria te dizer", pág. 123-126, Martha Medeiros.

Dedicado à dona do livro, uma grande amiga, Jailma.

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